Eu nasci Fernanda. Provavelmente sem saber o porquê, mamãe me chamou Fernanda. Rapidamente, incorporei o nome ao que me tornei. De origem teutônica: Fernanda - “a ousada”.
Muito moleca, cresci ao redor dos meninos, irmãos e primos, que construíram comigo minha forma de ver o mundo. Não por acaso, muitas vezes menos angelical do que se espera do feminino.
Percebi desde muito cedo que todos os “nãos” que se dirigiam a mim, todas as amarras carinhosamente veladas por meio de frases como: “isso não fica bem para meninas” ou “eles podem e você não” , não estavam nos planos. Não se trata de um discurso feminista; aliás, não se trata de defesa de nenhuma idéia. Trata-se apenas do que sou.
Na confusão dos tantos “nãos”, que eu não entendia nem digeria, outros caminhos se abriram e tudo o que foi dito foi armazenado.
“Quero uma vida diferente pra você."
“Um dia vai sumir no mundo essa menina."
“Quem entende porque chora tanto no aniversário?!”
“Como me faz passar vergonha...diz verdades que não se deve dizer."
"Isso não é só seu. Vai dividir com seus irmãos."
“Não confie nos homens, todos mentem."
“Não quero que aprenda a cozinhar. Não vai ser dona de casa. "
“Olhe para os dois lados quando atravessar a rua. "
“Desde que começou a falar, não consigo mais mandar nela."
“Você quer me enlouquecer, menina?”
“Pare de fazer as vontades dela! Vai estragar essa menina!”
“Não me desminta na frente dos outros! Mesmo que eu minta!”
“Veja como seu irmão faz tudo o que eu peço!”
“É por isso que ter amigos não vale a pena. Uma hora sempre te deixam na mão."
“Vamos, filha. Colocar roupa nova para a fotografia."
“O que você quer de aniversário?”
“Precisa de ajuda?”
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Foi quando comecei a construir minhas próprias frases.
“Por que eles podem e eu não? ”
“Por que vocês estão brigando?”
"Sempre me emociono quando me dão parabéns no meu aniversário."
“Não digo pra onde vou. É coisa minha”.
“Mas não era pra eu dizer sempre a verdade?”
“Quem gosta de cozinhar não pode ser independente?”
“E não existem pessoas em quem confiar? Eu acho que sim!”
“Por que eu preciso de roupa nova? Eu já tenho roupas...”
“Eu não sei o que eu quero de aniversário. Eu não estou precisando de nada.”
“Vou morar sozinha."
“Não se preocupem, eu me viro."
"Já disse que está tudo bem! Eu dou um jeito!"
“Na verdade, agora eu preciso de alguma ajuda...”
“Mãe, me dá colo?”
"Pai, como eu resolvo? "
...
terça-feira, 2 de março de 2010
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Esta é a Fê! Linda, louca e louvável.
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